Maria Rita chega ao Sertão Urbano
- Gustavo Soares
- 1 de dez. de 2017
- 3 min de leitura
O céu de terça-feira, dia 14 de junho, estava nublado. Antes mesmo do sol se pôr, o céu se dividia entre laranja e cinza. Por volta das 19 horas, as nuvens carregadas ameaçavam fazer chuva. A mistura de graça e caos antecipavam a noite, que conceberia mais um dos grandes shows que já se deram no palco do Centro de Eventos Professor Ricado Freua Bufáiçal, Campus II.
A estrela da noite era aclamada, se via nos olhos de cada pessoa ali presente. A volta do projeto Música no Campus, que em parceria com a Unimed ressuscitou a música na UFG, trouxe como terceiro espetáculo o show “Samba da Maria”. Maria Rita, a primeira mulher a estrear o palco da universidade, depois do hiato.
Começou bem, fazendo jus ao nome da turnê, vibrou todos com um samba. Vestia um macacão florido e quando abria os braços a roupa parecia asas. Os louros cachos acompanhavam o balanço quando Maria, delicadamente, sambava nas pontas dos pés. Cumprimentou o público com gratidão antecipada. O show acabara de começar e já estava se curvando em agradecimento. Sua reverência extravasa carisma e eu, que já participei de outros shows, nunca a vi acolhida com palmas tão fortes quanto aquelas.

Foto: Gustavo Soares
A interação foi recíproca. Em meio ao “laiá laiá”, a cantora regia o público com movimentos para lá e para cá. Fez com que ondas de mãos e braços se incorporassem num mar de fãs. Uma rosa colombiana, de vermelho sangue, se dava posta na pequena estante de partitura, onde Maria ia, a cada intervalo de música, passar as páginas. Seu salto fino e alto, também vermelho como a rosa, não a atrapalhou de dançar da maneira mais expressiva possível.
Não só cantava as músicas, como também as interpretava. A presença de palco me fazia perguntar se estava num teatro. Antes do show, durante conversas sobre a magnificidade da cantora com outros que ali esperavam, Jouse, de 42 anos, me disse que já havia ido em vários shows de Maria Rita. Contou que a artista se apresentar no sertão urbano é coisa rara e por fim confirmou que a voz de Elis Regina é para ser ouvida duas vezes, por isso que Deus a presenteou com uma filha.
Depois de apresentar cordialmente a banda que lhe acompanhava, trocou palavras com o público dizendo ter sempre a dúvida de “será que vem gente mesmo pro show? ”. Se auto-afirma e confessa apontando para o chão, “vocês só me dão a certeza que meu lugar é aqui, me apresentando e cantando”. E num momento de concentração, a luz ambiente diminui até apagar. Um único feixe de luz ilumina a cantora.
De cabeça baixa ela se mantém quieta, como se tivesse recebendo alguma entidade. Assume uma postura mais acanhada, sem gesticular muito com os braços, e começa a cantar “O Bêbado e a Equilibrista”. Centrada, naquele momento seu sentimento aos poucos cresce dentro de si. Homenagem. Ao chegar aos versos "A esperança equilibrista/ Sabe que o show de todo artista/ Tem que continuar", aponta para o alto céu e se derrama em lágrimas. Claramente, de maneira subjetiva, se refere à mãe Elis.
Descontraída e a vontade, Maria Rita ao final do show dialoga outra vez com o público. Os trata como íntimos e recebe gritos de um amor fraternal. Ela, que acabara de inteirar 40 anos, soltou no ar que “a vida é muito boa mesmo!”. Decidiu tirar os sapatos, desabotoou a pequena fivela e tocou seus pés descalços no lugar sagrado. Proclamou “simplesmente Elis”. Homenagem, outra vez. Dançou mais uns três a quatro sambas, com a rosa em mãos, e finalizou em gratidão com a banda.