Zeca Baleiro carrega amor maior que o Estado de Goiás
- Gustavo Soares
- 15 de set. de 2017
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Montavam-se barraquinhas na UFG, Campus Samambaia, na última noite de terça-feira (5). Em frente ao Centro de Eventos Professor Ricardo Freua Bufáiçal, a pequena feira fora iluminada em torno das 19h30min, enquanto a noite caía. Penduradas por um único fio, as lâmpadas iluminavam desde quem vendia espetinhos e cervejas a quem comprava pastéis e sucos de laranja. O público ansioso esperava comendo. Mantinham seus olhos fixos para dentro do grande auditório, à espera da abertura das portas só enxergavam o palco escuro e seguranças que andavam de um lado para o outro.
O projeto Música no Campus, em parceria com a Unimed, trouxe como segunda atração, o artista Zeca Baleiro, no ano de 2017. O corte de gastos sofrido em 2016 fez com que o programa passasse pelo intervalo de um ano. A reestreia do evento aconteceu em julho, tendo Lenine como apresentação principal. Com o objetivo de incentivar a aproximação de músicos, estudantes, profissionais e praticar a inclusão sociocultural, o projeto faz jus ao seu nome. Sem confirmar exibição anunciam: mais um show ocorrerá em dezembro.

O artista chega ao camarim como qualquer outra pessoa. Sua autenticidade humilde de quem carrega uma mochila não transparece a alma de estrela. Astro que não age como astro. Coloca a bolsa sobre o sofá e cumprimenta cada repórter que estava à sua espera. “Vocês são muitos! ”, disse para quebrar o gelo. Risadas soam. A sala cheia fez com que se esquivasse até um cenário improvisado. Um dos técnicos faz seu trabalho e confere “câmera um foi. Dois, ok? Microfone ligado. Gravando!”.
Incitado por perguntas, conta que começou velho no business da música, apesar de viver nesse universo desde a infância. “Por algumas razões minha geração grava tarde. Diferente daquela que gravou muito cedo. Falo de Chico, Gil, Caetano, Cazuza, Frejat que com seus vinte poucos anos já lançavam músicas. ”. Por influência da família, já compunha aos quatorze. Aos dezoito, inicia seus trabalhos no teatro e lá cria coragem para mostrar suas letras.

Inicia bem o show. Sua voz no microfone sobre uma base dark feita por batuques quase tribais introduz um dos grandes clássicos. O solo de guitarra traz textura praticamente psicodélica. O grito de quebra, como uma deixa para banda, separa a base calma do som pesado. “Heavy Metal do Senhor”, de seu primeiro disco “Por Onde Andará Stephen Fry?”, carrega identidade de um artista que começava a carreira há vinte anos atrás. “Boa noite! É um prazer tá de volta”.
Canta obras conhecidas de sua discografia. As apaixonadas como “Meu Amor, Minha Flor, Minha Menina” e “Telegrama” agradam tanto os casais como os solteiros. Em coro, o público responde positivamente ao show. Uns com os amigos, outros abraçados junto a seus romances de verão. Sandálias de couro vermelho nos pés, calças jeans desbotadas, camisa xadrez surrada e por baixo dela uma camiseta azul, escrita “Não deseje, faça”. Para entrar no palco só trocou o boné. Substituí o bege por um de couro, com estampa camuflada. Não se mostrava preocupado com estética. Antes mesmo de desejar fazer, Zeca faz.
Em âmbito universitário que o músico se desenvolveu. Num festival chamado “Comunicar-te”, dentro do tempo que cursava jornalismo, se apresenta por uma das primeiras vezes. Nem agronomia o fez insistir na academia. “Devo muito à minha curta vida universitária. Fiz um ano de agronomia, um ano de jornalismo e saí. Já estava muito contaminado pela música”. Confessa que sua experiência fora da sala de aula que o enriqueceu. Os corredores lhe trouxeram filmes, discos, autores e poetas, que por meio desse relacionamento de troca tão importante, contribuíram para o artista que ele é hoje. “Mesmo em tempos de pobreza cultural, a faculdade sempre nos favorece uma interlocução mais inteligente e leve”. "Tá animado pro show?", pergunta um repórter. “Claro! Tocar pra esse público é sempre especial. São naturalmente entusiasmados e alcoólicos!” (Risos).

Provocado pelas letras que revelam preocupação social e críticas viscerais, o questiono sobre o atual cenário político do país. Ele leva a mão na cabeça preocupado. Com expressão neutra e tom de voz desanimado se mostra desagradado em opinar. “Sei que o artista tem que se manifestar – não só artista, mas todo mundo, todo cidadão – mas o momento é tão desagradável que espero só que passe. O brasileiro merece. Um povo trabalhador, um pouco corrupto, ok, todos nós sabemos, mas é também cheio de qualidades”. Com os olhos marejados completa: “espero que alguém realmente comprometido com a causa social entre no poder. Que busque o equilíbrio social, isso é filosofia básica. Enquanto não houver essa persona, quase como um missionário, nada vai acontecer”.
Próximo ao fim do show, pulava a cada finalização de música. A performance teatral em cima do palco o fazia rebelde. Ao se apoiar nas costas do guitarrista, a pose os fez dupla sob o solo dedilhado. O microfone virado ao público incentivava as vozes cada vez mais altas. A fumaça artificial criava um ar de névoa baixa. Apresentou cada integrante da banda animadamente, que por sua vez levantam seus instrumentos como agradecimento. Antes de encerrar, com o punho direito cerrado para alto grita “obrigado!”. Zeca some meio ao escuro. Os musicistas se aproximam e com os braços do baixo e da guitarra, os instrumentos formam um X, que encerram o show como um duelo de rock dos anos 90.
Fotos:
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