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Simplicidade de Capitão Fantástico

  • Isadora Tristão
  • 24 de jun. de 2017
  • 3 min de leitura

Capitão Fantástico, dirigido por Matt Ross, foi lançado em 2016. Filme de categoria indie e produção independente cativa pelo seu lado cômico misturado com críticas políticas.


O longa conta a história de Ben, interpretado por Viggo Mortensen, vivendo com seus seis filhos no meio de uma floresta. Eles sobrevivem da natureza e as crianças estudam em casa com os livros do pai. Durante a trama os seis jovens aparecem lendo sobre assuntos como física quântica, biologia, entre outras coisas.



Certo dia os seis jovens descobrem que sua mãe faleceu. Eles convencem o pai a ir até a cidade para o velório da mãe, os seis filhos queriam cumprir o desejo dela de ser cremada.


O filme Capitão Fantástico foi tão bem recebido pelo público e pela crítica que recebeu o prêmio de melhor direção em Cannes. Viggo Mortensen, que interpreta o pai, foi indicado ao Globo de Ouro por sua atuação impecável, mas Capitão Fantástico não é uma história comum, é um filme original carregado por um tom crítico.


Capitão Fantástico começa com a crítica ilustrada pela família que tenta seguir o pensamento hippie indo contra o sistema econômico. A forma excêntrica de viver é mais do que um simples estilo de vida. É uma afronta ao modus operandi da sociedade, apresentado pela auto exclusão, a Revolução Individual e Não Coletiva.


Uma das grandes marcas do filme como luta contra o sistema, é quando o pai e seus seis filhos vão ao enterro da mãe usando roupas coloridas. A reação das outras pessoas é de choque. Enquanto todos estão de preto, remetendo ao luto, a família de Ben veste roupas de cores vibrantes.


A grande ironia que o filme traz é em relação à sociedade de consumo. Enquanto o mundo “real” vive em torno do dinheiro e do que ele pode comprar, Ben e sua família vivem do que a floresta oferece. Sem os luxos de uma vida regada à tecnologia, as crianças crescem brincando no “paraíso” que seus pais descobriram.


O filme leva a história para um lado um pouco distante da realidade, isso porque diretor Matt Ross usou e abusou do conceito e da mentalidade hippie para caracterizar a família. Ross também não poupou a ideia de consumismo para mostrar os dois lados da mesma moeda. O objetivo é contestar a sociedade política e conservadora.


Na essência de Capitão Fantástico, estão questões básicas. O que você está fazendo da sua vida? O que você quer ser e fazer neste mundo louco? Matt Ross não tem respostas prontas nem propõe soluções, mas a viagem de Viggo Mortensen e suas ‘crianças’ é muito inspiradora.


O discurso de Ben evoca o tema fundamental do filme. A negação de valores do liberalismo econômico em defesa de uma vida livre e igualitária, ambos universos por onde pode perpassar o autoritarismo.


O filme aos poucos levanta um questionamento pertinente sobre o idealismo em uma sociedade opressora. Sobre como a fuga de um regime tirano pode levar a um comportamento igualmente autocrata e dominador.


Seus filhos, entre sete e 18 anos, têm pensamento crítico, excelentes referências culturais, ótimo desenvolvimento musical, aptidão física de um atleta de ponta e um ideal de convivência horizontalizado, em negação a hierarquias. Mas aqui o amadurecimento dos garotos Bo e Rellian, traz uma outra problemática. Os dois rapazes se sentem socialmente deslocados e os questionamentos deles levam Ben a colocar em dúvida a metodologia como pai.


Quando colocados em contraste com primos imersos na cultura do consumo, os filhos de Ben fazem a sociedade moderna parecer tóxica, estúpida, fútil. O direcionamento da narrativa para este sentido é proposital. Em certo momento o sogro de Ben apresenta argumentos pertinentes ao condenar o estilo de vida da excêntrica família.


Nessa cena nos sentimos cúmplices do abuso infantil, dos riscos de morte, dos constrangimentos sociais aos quais os seis filhos são expostos ao longo da trama. Riscos esses com os quais fomos coniventes em nome de uma proposta de educação diferenciada.


Mas na terceira parte do filme, Capitão Fantástico abandona o potencial de tensão para trilhar um caminho leve de resignação e catarse. A falta de manejo de Bo nas relações sociais e seu desejo por ingressar numa universidade; o fato de Rellian se sentir deslocado e as ameaças do sogro de tomar a custódia das crianças são algumas das adversidades apresentadas.


Em uma trajetória clássica de volta ao ponto de partida, esses problemas parecem apenas obstáculos funcionais a se superar e deixar para trás. O objetivo é transmitir a ideia de que o amor da família sempre impera, acima de tudo.


No fim, de todo o aprendizado a família absorve o que lhe é conveniente. Neste sentido, o espectador corre o risco de se desassociar dos personagens. Isso acontece porque o impacto da trajetória afeta o público, mas parece passar imune pelas pessoas retratadas no filme.

Imagens: Reprodução

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