Três anos de Operação Lava-Jato: Políticos goianos envolvidos em repasse de recursos privados
- César Fontenelle e Larissa Farias
- 24 de mar. de 2017
- 3 min de leitura

Na última semana, a maior e mais importante operação de investigação de corrupção e lavagem de dinheiro do Brasil, conhecida como Lava-jato, completou três anos. A operação teve início em março de 2014 perante a Justiça Federal de Curitiba. A princípio, foram investigadas e processadas quatro organizações criminosas lideradas por doleiros, que são operadores do mercado paralelo de câmbio.
Depois, o Ministério Público Federal recolheu provas de um imenso esquema criminoso de corrupção envolvendo a Petrobras. Ao longo desses três anos, centenas de empresários e políticos foram citados, principalmente após início das delações premiadas.
No último dia 14, na semana em que a operação completou mais um ano, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, fez 83 pedidos de investigação no Supremo Tribunal Federal (STF). De acordo com a Folha de S. Paulo, estão na “lista de Janot”, como ficou conhecida, os nomes de seis ministros do atual governo, dois ex-presidentes, além de deputados e senadores. O ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo, vai decidir a partir de agora se aceita ou não os pedidos para abrir os inquéritos, e se manterá os casos sob sigilo. Não há prazo para Fachin tomar uma decisão.
Onde Goiânia entra nessa operação?
A capital de Goiás foi mencionada no documento apreendido na 23ª fase da Operação Lava Jato. O objetivo desta etapa – chamada de “Acarajé” por ser justamente a forma como os investigados apelidavam o dinheiro em espécie - era cumprir as medidas cautelares relacionadas a três grupos: um grupo empresarial responsável pelo pagamento de vantagens ilícitas, um operador de propina e um grupo recebedor. O terceiro teve sua participação confirmada com a entrega de quantia descoberta no exterior – que ultrapassa a linha dos sete milhões de dólares.

Dentro da estrutura organizacional da empreiteira Odebrecht, um setor inteiramente destinado ao pagamento de propinas foi identificado, com funcionários dedicados e um sistema eletrônico elaborado especificamente para essa finalidade. Em planilhas apreendidas ainda na 23ª fase da Lava Jato, foram identificados pagamentos em espécie a centenas de recebedores.
Segundo avaliação dos procuradores do Ministério Público Federal, os pagamentos foram aprovados por diretores responsáveis pela supervisão de obras como as da Arena Corinthians, em São Paulo, uma das sedes da Copa do Mundo de 2014; de metrôs no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, e do novo Aeroporto de Goiânia.
Nas tabelas, constavam valores, endereços e codinomes de recebedores de propina e dos executivos de alto escalão da Odebrecht que autorizavam os pagamentos, entre eles a sigla MBO. Segundo a equipe responsável pela investigação, esta sigla corresponde a Marcelo Bahia Odebrecht, presidente-executivo da companhia.
No caso do Aeroporto de Goiânia, a Folha de S. Paulo informa que o diretor de contrato da empresa, Ricardo Ferraz, aparece em planilhas como responsável por solicitação de pagamentos de R$ 1 milhão a alguém identificado como “Padeiro”, e de R$ 400 mil a um certo “Comprido”.
E os nomes do governador Marconi Perillo, do ex-senador Demóstenes Torres e o prefeito de Goiânia Paulo Garcia estão dentre os políticos que aparecem como supostos beneficiários da entrega desses recursos. (Veja planilha com os nomes e as quantias)
Além do vínculo com a reforma do Aeroporto Santa Genoveva, segundo Diário da Manhã, a Odebrecht tem em Goiás várias obras em atividade e licitações, como a operação dos serviços de esgoto em contratos com a Saneago. Um dos braços da empresa – a Odebrecht TransPort – integra consórcio das empresas que pretendem instalar o veículo leve sobre trilhos (VLT) de Goiânia – obra atualmente paralisada e sem revisão de cumprimento de cronogramas.
Todos os políticos goianos, por meio de seus representantes, negaram qualquer ilegalidade com a Odebrecht, empresa que pretende realizar delação premiada no caso da Lava Jato. Declararam, também, que todas as doações para as campanhas de candidatos do partido foram devidamente declaradas à Justiça eleitoral, efetuadas via transferência bancária e atestadas por recibos.