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Amor e respeito não têm cores

  • Ana Paula Tavares
  • 19 de nov. de 2016
  • 5 min de leitura

Esse assunto deveria ser motivo de alegria e orgulho, mas termina sendo também motivo de consternamento. Pois bem, a adoção de uma criança é dar a ela a oportunidade de ser amada por alguém que a verá como um filho e representa um ato muito nobre, de extremo zelo.

O que impacta é que para algumas pessoas, externas à escolha individual de quem adota, a cor da pele de um ser humano atua como um fator excludente. Nenhum ser vivo deveria ser visto como mercadoria. Crianças órfãs não são objetos que devem ser escolhidos pela embalagem e muito menos pela marca.

A notícia recente de que o casal de atores Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank adotaram Titi, uma menina africana de dois anos, provocou comentários negativos e a criança foi alvo de racismo. O ator prestou queixa na polícia na última quarta feira, dia 16, para segundo ele, evitar a repetição de casos como esse.

O racismo permanece inflexível, e continua se alastrando na sociedade com o escopo de destruir qualquer pessoa diferente, abalar a autoconfiança e visar a humilhação, a troco da exaltação pessoal daquele que pratica o ato preconceituoso. Sim, quem diminui o outro por questões inerentes a algo que poderia ter sido escolhido por ele ou ela, apenas se julga superior como se fosse da mais rara casta. Mesmo que seja clichê, é necessário dizer que somos todos iguais, independente das características físicas.

Para olhar mais a fundo para a ideia de igualdade racial, basta examinar o reino animal e pegarmos as definições da biologia. Nenhum indivíduo da mesma espécie possui as mesmas características biológicas. O conceito de espécie nos diz que um conjunto de seres vivos podem se cruzar e precisam gerar descendentes férteis. Sendo assim, não importa a cor, a miscigenação é o resultado dessa reflexão.

Há não muito tempo, outras celebridades brasileiras também foram atacadas por comentários racistas na internet. As cantoras Ludmilla e Preta Gil, a atriz Taís Araújo e a jornalista Maria Julia Coutinho denunciaram as agressões. Foram anos de repressão e segregação sofridos pelos negros não só no Brasil, mas em todo o mundo. Eram tratados e vistos como uma raça inferior e seres sem alma e desprovidos de sentimentos, feitos para passarem suas vidas entregues ao trabalho torturoso.

A igreja católica não foi contra a escravidão, porque assim seria mais fácil impor o seu catolicismo. Por esse motivo, os brancos subjugavam os negros, inferiorizavam-nos e usurpavam sua liberdade. Pena que essa forma superior de olhar para os negros continua se perpetuando na sociedade brasileira e faz vítimas com sua ignorância e seus discursos de ódio, fundamentado com argumentos falhos e limitados.

O autor Lívio Sansone explica em seu livro que “em termos gerais, na América Latina, o que se considera negro é desvalorizado e traz conotações negativas – até dentro da família, os membros com traços negróides mais acentuados costumam ser considerados mais feios”. O preconceito que atinge os africanos e seus descendentes no Brasil não está apenas no âmbito físico, como cor da pele, o cabelo, os traços do rosto. Os repressores usam até mesmo das suas manifestações culturais para hostilizar e colocar o povo negro em um lugar de dominado.

Em qualquer elemento que seja visto como pertencente ao universo dos descendentes de africanos é colocada uma carga negativa e assim se torna difícil colocar um fim ao preconceito racial, visto que o preconceito se disfarça de piada, mas uma piada que sempre faz graça com o que é diferente ao sujeito, menospreza e se delimita a apenas um grupo específico e tem como objetivo sufocar aos poucos aquele que é definido pelo contrário de outro.

A população negra não é reduzida, não são sequer minoria no país, uma vez que representam 54% da população. No entanto, são vistos como minoria pela falta de representatividade. Para celebrar e conscientizar sobre a importância do povo africano na formação da cultura nacional é que se comemora em 20 de novembro, o dia da consciência negra.

A data foi escolhida pelo fato de ter sido, no ano de 1695, o dia em que morreu Zumbi, líder do quilombo dos Palmares. Zumbi é um personagem histórico visto e enaltecido como um símbolo da resistência negra contra a escravidão, da mesma forma que eram os quilombos, locais de refúgio de escravos. Ele ganhou fama como herói nacional, morto em combate, numa emboscada. Um fato a respeito do líder que hoje é respeitado, é que Zumbi dos Palmares não era contra a escravidão, mas sim a favor dela, escravizando outros negros no seu quilombo.

O feriado, no entanto, não é comemorado em todas as cidades do país. Ele foi celebrado pela primeira vez em 2013, mas já era comemorado há mais de 30 anos por ativistas do movimento negro, antes de ter sido oficializado. Atualmente, ele é comemorado em mais de mil cidades brasileiras, já que nem todas têm o dia da consciência negra no seu calendário oficial. Em algumas cidades, como é o caso de Curitiba, o feriado foi suspenso.

Assim, o dia da consciência negra é visto como o dia de lembrar das conquistas dos afro-brasileiros e ainda assim, vivemos aqui no Brasil, o tanto lembrado “mito da igualdade racial”, de que há uma convivência pacífica entre as etnias. Essa ideia surgiu a partir da segunda metade do Século XX com a publicação de “Casa Grande Senzala” do sociólogo Gilberto Freyre. Na obra, Freyre considera que as relações entre negros e brancos no Brasil se deram e se dão de forma harmônica.

Para visualizar como o problema é grande, em 2015, de acordo com os dados da Pesquisa Mensal de Emprego (PME), divulgada pelo IBGE, os trabalhados negros ganharam em média, 59,2% do rendimento dos brancos em 2014. Segundo um relatório divulgado também no ano de 2015, pela Secretaria Nacional de Juventude da Presidência da República, em Brasília, jovens negros são as principais vítimas da violência, tendo 2,5 vezes mais chances de serem assassinados do que jovens brancos.

Conforme dados do estudo retrato das desigualdades de gênero e raça, do Ipea, sete em cada dez casas que recebem o benefício do Bolsa Família são de negros. E claro, os problemas que afetam a população negra no Brasil não para por aí, mas é claro que se fôssemos falar sobre eles, teríamos que dedicar um quadro inteiro para poder falar de todo o histórico e de como as melhorias na situação foram poucas.

Evidentemente, o progresso não foi ínfimo, e uma das conquistas dos afro-brasileiros é o dia da consciência negra. Outra questão, que foi polêmica e dividiu opiniões, foi a questão das cotas raciais para negros ingressarem nas universidades, tendo a Universidade de Brasília (UNB) sido a primeira a implementá-la, em 2004.

Houve também, no ano de 2013, a criação pelo Governo Federal, da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, que tem por objetivo o estabelecimento de política público de valorização da cultura negra com o intuito de corrigir as desigualdades provocadas pela escravidão.

Esses foram apenas alguns exemplos. Muitos foram os passos dados pela luta negra em solo brasileiro e sabemos que muitos serão, negros também têm sonhos.



Para concluir a análise, por que não uma frase de Nelson Mandela, importante líder político na luta contra o apartheid?


Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar”.

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