Pelo respeito ao multiculturalismo
- Lethycia Dias
- 12 de nov. de 2016
- 4 min de leitura

Quando se trata do Enem, o Exame Nacional do Ensino Médio, a redação é quase sempre uma dais maiores preocupações dos estudantes. Quando a prova se aproxima, especialistas em pré-vestibular e portais de estudos online costumam fazer listas de possíveis temas, mas uma coisa é certa: já é uma tradição que o Enem trate alguma questão social ou assunto ligado aos direitos humanos.
No ano passado, por exemplo, foi a persistência da violência contra a mulher. Neste ano, não foi diferente. Ainda na tarde do domingo passado, o Ministério da Educação, o MEC, anunciou pelas redes sociais o tema sobre o qual milhões de estudantes estavam escrevendo, “caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil”.
Existe um consenso de que no Brasil não existem disputas religiosas e que o país de cultura tão diversa, habitado por pessoas tão diferentes, aceita todas as religiões. Porém, basta refletir um pouco para perceber que não é bem assim.
Se por um lado, o Estado garante a liberdade religiosa como um direito fundamental, por outro, nem todas as práticas são respeitadas. Assim, pessoas incluídas em minorias religiosas, ou praticantes de religiões não-cristãs, mesmo quando em grande número, costumam sofrer discriminação.
Segundo o Censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, cerca de 86% da população brasileira seria de cristãos, incluindo católicos e evangélicos, em suas várias vertentes, e também testemunhas de Jeová e espíritas.
Entre outras religiões praticadas no país, estão o islamismo, o budismo, o judaísmo. Além de novas religiões orientais, como a igreja messiânica, e o religiões neopagãs, como a wicca. Há também os praticantes de tradições indígenas e de religiões afro-brasileiras, como a umbanda e o candomblé. Há ainda um número expressivo de brasileiros que se declaram como agnósticos, sem religião ou ateus.
Quanta diversidade, não é mesmo? Mas isso não significa que todas as pessoas tenham espaço para praticar sua religião no Brasil. Nem todas as religiões têm os mesmos direitos. Um bom exemplo disso é que centros de candomblé e umbanda pagam o Imposto Territorial Urbano, IPTU, enquanto igrejas católicas e evangélicas ficam isentas da cobrança.
Também é normal que líderes religiosos, em sua maioria evangélicos, se organizem politicamente, buscando defender pautas que dizem respeito às suas concepções religiosas, o que entra em confronto com a laicidade do Estado. Teoricamente, no Brasil, política e religião não deveriam se misturar.
E que tal falarmos de representatividade? É muito raro ver religiões minoritárias bem representadas em filmes e novelas brasileiros. Quando elas estão presentes, é comum que sejam estereotipadas, o que reforça o preconceito. Pare e pense em quantas piadas sobre pais e mães de santo ou sobre muçulmanos você já viu na televisão.
Um caso recente envolvendo a falta de representatividade aconteceu durante as Olimpíadas no Rio de Janeiro. O Centro Ecumênico dos Jogos Olímpicos era um local reservado aos atletas que estiveram no evento, e que oferecia cerimônias de diversas religiões, mas excluía o espiritismo, a umbanda e o candomblé. Mesmo depois de uma recomendação do Ministério Público Federal, o Comitê Olímpico voltou atrás.
Entretanto, essas são apenas formas simbólicas de manifestação da intolerância religiosa. Muitas vezes, a não-aceitação do diferente é manifestada com violência. Em igrejas católicas, imagens de santos costumam ser quebradas, terreiros de umbanda e candomblé são vandalizados, pessoas são agredidas. Muçulmanos, principalmente mulheres, que são identificadas pelo uso do véu, sofrem ameaças e perseguições, e é comum serem chamados de terroristas.
No ano passado, teve grande repercussão o caso de uma menina de onze anos, praticante do candomblé, que foi apedrejada quando saía de um culto, no Rio de Janeiro. Também no Rio, entre 2009 e 2013, traficantes evangélicos tinham o costume de ameaçar e expulsar mães de santo das favelas. O disque direitos humanos, também chamado “Disque 100” é um portal criado em 2012 e voltado para a denúncia de diversos crimes, como violência contra a mulher, pornografia infantil, homofobia, xenofobia, apologia a crimes, racismo, neonazismo, tráfico de pessoas e intolerância religiosa. Segundo o portal, a intolerância religiosa aumentou em cerca de 70% em 2015. Foram 252 denúncias, o número mais alto desde que o Disque 100 foi criado. Mas é possível que muitos casos não sejam denunciados, seja por medo ou por falta de informação das vítimas. Para denunciar, você pode ligar no número 100 ou acessar o site www.disque100.gov.br.
Diante de tudo isso, é perceptível que ainda temos muita coisa a fazer se quisermos um Brasil mais igualitário. Somos um país que ainda acredita que o diferente deve se afastar ou permanecer escondido, mas esse pensamento está errado. Quanto mais as diferenças se mostram, mais fica claro que os preconceitos precisam ser combatidos.
Na semana passada, milhões de estudantes brasileiros tiveram de escrever sobre a intolerância religiosa, buscando soluções. Esse foi um pequeno passo para um futuro em que a diversidade religiosa do nosso país será devidamente respeitada.
Agora, indico a canção People Are People, em que a banda Depeche Mode faz um importante questionamento: pessoas são pessoas, então por que eu você temos de nos dar mal?