Art déco, patrimônio cultural de Goiânia
- Aline Borges
- 24 de out. de 2016
- 4 min de leitura
Em comemoração ao aniversário de nossa cidade, iremos colocar em pauta um assunto literalmente esquecido por aqui. Quem conhece Goiânia por seus parques e praças, shows e festivais, com certeza deixa de lado a arquitetura que norteou a construção da cidade desde o começo e representa tanto na história. Mas, afinal, o que arquitetura pode contar sobre uma cidade? Como ela pode interferir no meio e na forma como as pessoas se relacionam com ele? Hoje, ao passarmos pelo centro de Goiânia, vemos uma realidade um pouco desestimulante. Parte das construções mais antigas e tombadas como Patrimônio Cultural da Cidade têm sido escondidas por fachadas de prédios e o descaso das autoridades.
Em entrevista por telefone para o Matéria Prima, o presidente do Sindicato dos Hoteleiros de Goiânia, Luciano de Castro Carneiro, fala da realidade de hoje em relação aos prédios que contam a história da construção de Goiânia. Segundo ele, tudo isso é fruto do descaso do governo que não trata o patrimônio público como deve ser tratado. Também vivemos um contexto de falta de informação, materiais mal conservados e mal divulgados. As maiores ações para divulgar esse patrimônio, segundo Luciano, são promovidas pelos próprios hoteleiros visando a promoção do turismo na cidade. Falta cultura e interesse. E qual o papel da população em meio a tudo isso? De acordo com o presidente, deveria ser o de cobrar que as autoridades cumpram suas propostas políticas no tocante a revitalização do centro.
Mas antes de entrar de fato nos dias atuais e na realidade em que estamos, precisamos compreender um pouco da história e do passado da construção de Goiânia. Além disso, voltar ao passado e reviver o auge do art déco. Hoje, 24 de outubro, Goiânia completa seus 83 anos. Apesar de jovem, essa capital já nasceu com um grande sonho e ambição. Todo seu planejamento foi pautado para que a cidade representasse o último grito da modernidade para, dessa forma, mudar toda a concepção do interior do Brasil. Segundo a autora Alcyone Cardoso Novais em seu artigo “A Arquiterura Déco de Goiânia”, havia uma grande preocupação com o estilo arquitetônico da cidade no que se referia aos prédios públicos. Estes deveriam impor admiração, ética e respeito político, isso porque, governos totalitários como o de Getúlio Vargas associavam a arquitetura e suas construções monumentais como uma forma de exaltação ao seu poder.

O arquiteto responsável pela estruturação do planejamento, Atílio Correia Lima havia acabado de voltar de Paris, onde estudou urbanismo. A princípio, a cidade foi projetada para abrigar 15 mil habitantes e poderia atingir a máxima de 50 mil. Entretanto, assim que seu contrato venceu, Atílio deixou o projeto que, em 1936 foi assumido por Armando Godoy. Responsável, então, pela implementação e construção da cidade, a importância da arquitetura proposta por Atílio trouxe grandes resultados à cidade e colocou Goiânia em seu mapa de abrangência e destaque. Hoje, podemos ver que a cidade cresceu além do planejado. Toda a preocupação com trazer uma arquitetura moderna que simbolizasse que a capital era jovem, moderna e pulsante, deu lugar ao progresso e crescimento desmedido. Hoje, poucas pessoas conhecem ou reconhecem as obras no estilo art déco na capital. Façamos um teste, convido você a pensar em pelo menos três construções de Goiânia que tragam marcas desse estilo. Complicado não é mesmo? Hora de compreender o art déco.
Passear pelo centro de Goiânia, passando pela praça cívica em direção a Avenida Goiás nos levaria ao passado. O coreto da praça, o relógio do início da Avenida Goiás, o museu, todas essas construções tem influência deste estilo que nasceu em Paris no ano de 1925. A modernidade dos traços é somada à composição clássica da base, aliada ao uso de formas geométricas. Seu nome é uma abreviação de artes dècoratifs e industriels, em português, artes decorativas e industriais.
Márcia Metran de Mello, em seu livro “Goiânia, cidade de pedras e de palavras”, diz que o estilo teria recorrido a fontes heterogêneas e pré-existentes, consolidando um resultado inédito. No início, houve uma espécie de preconceito por parte dos academicistas em relação ao estilo o que estudos demorassem a começar. Segundo Márcia, toda essa concepção fez com que muitos edifícios fossem postos ao chão sem mesmo uma avaliação prévia.

Desde 2003, tivemos 22 construções tombadas. Isso agrega valor ao patrimônio da cidade e evita que os proprietários dos mesmos façam grandes alterações nas fachadas, mantendo o caráter histórico. A responsabilidade de cuidar do patrimônio continua a ser do proprietário, apesar disso. Como vimos, não prédios não servem apenas para habitar e monumentos lembram muito mais do que podemos imaginar.
Aproveito para fazer um convite neste dia especial. Caminhe pelo centro da cidade e tentem enxergar a história da capital em cada detalhe, enfim, reviver a Goiânia de décadas atrás. Esse exercício não só aumenta nossa relação com o meio, como desperta em nós cidadãos o desejo de cuidar do que é nosso. A proteção ao patrimônio histórico é prevista pela Lei 8.915, que dispõe sobre a proteção ao patrimônio histórico e artístico estadual e dá outras providências, e institui a Secretaria de Estado da Cultura e o Conselho Estadual de Cultura como os responsáveis pela manutenção e acompanhamento.