Valorização e visibilidade das mulheres na ciência
- Bárbara Luiza
- 8 de out. de 2016
- 5 min de leitura
Este Você Sabia? é crítico e cheio de informação, especialmente para você. Vou fazer uma dedução sobre o seu passado para começar: O que você viu, leu e aprendeu nos seus anos escolares sobre ciência? As teorias utilizadas tinham algo em comum?
Bom, mesmo que você talvez não tenha notado, elas partilhavam um fato curioso: eram todas elaboradas por homens. Ou, se você for contar uma menção ou outra que certa apostila sua já fez sobre o trabalho de alguma cientista, quase todas. Vivemos em um patriarcado, uma sociedade machista. Assim, o machismo está presente em todos os lugares e inevitavelmente é reproduzido por diversas pessoas em variadas situações, de diferentes formas, e o sistema educacional não está fora deste contexto, muito pelo contrário.

Dentro do atual sistema de ensino existem diversas formas de manifestação do machismo, desde o silenciamento de garotas até assédios. Mas nem sempre a opressão é pessoal e direta. Por exemplo, uma escola pode estar oprimindo uma garota por meio da própria educação, quando utiliza métodos e publicações acadêmicas que educam crianças para agirem de acordo com o machismo. Essa didática é opressora por impor às meninas que elas não podem agir de determinadas maneiras ou realizar coisas justamente pelo fato de serem mulheres. E dentre essas coisas está a área do conhecimento chamada de ciência. A representatividade, ou seja, a representação de determinado grupo social que se forma por meio da partilha de características em comum, é essencial na vida das pessoas. O fato de que as escolas não reconhecem e não ensinam sobre mulheres cientistas influencia diretamente na formação intelectual de seus alunos.
As crianças se acostumam a ver somente homens na ciência e, com isso, permanece em seus subconscientes que mulheres não fazem ciência. E pior: devido o costume de observar apenas figuras masculinas nas produções científicas, elas irão imediatamente assimilar que mulheres não podem ser cientistas. Mas pasme: mulheres cientistas existem SIM, só que, justamente por serem mulheres, elas não tem visibilidade nenhuma e, na maior parte das vezes, estiveram anonimamente trabalhando para que homens, mais adiante, tomassem o crédito por seus trabalhos.

Uma biofísica essencial na história da ciência e da humanidade foi Rosalind Franklin. A cientista britânica foi uma das pessoas pioneiras na biologia molecular especializada em cristalografia de Raios-X, seu trabalho foi fundamental para a descoberta da estrutura tridimensional do DNA, e ela foi quem conseguiu as melhores imagens de Raios-X da época. Em 1951, Rosalind aplicou os estudos com difração dos Raios-X e determinou a estrutura da molécula de DNA.
Sim, Rosalind Franklin, uma mulher, foi quem descobriu a estrutura da molécula de DNA, aquela que você já deve ter estudado bastante na sua vida, mas nunca soube de fato quem possibilitou isso. E na história de Rosalind fica evidente como o trabalho das mulheres é constantemente negligenciado e apagado historicamente. O trabalho da doutora Franklin foi, obviamente, indispensável para a determinação correta da função e estrutura do DNA.
O labor dela foi o que tornou possível que o bioquímico James Dewey Watson e os britânicos Maurice Wilkins e Francis Crick confirmassem a estrutura helicoidal da molécula e eles ganharam o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina por causa disso. Mas a doutora Rosalind Franklin não foi sequer citada por eles nesse processo, nenhuma vez. Ou seja, todo o crédito do trabalho de Rosalind foi para três homens que, muito oportunamente, utilizaram as descobertas da doutora para confirmar sua tese.
Está indignado? Pois é, e Rosalind foi apenas um desses casos. Existem inúmeros trabalhos importantíssimos para a humanidade que foram realizados por mulheres mas apropriados por homens oportunistas, machistas e desonestos. Todavia, com a consolidação do movimento feminista, as mulheres se empoderaram e, consequentemente, vêm conquistando muitos direitos que já deveriam ser delas simplesmente pelo fato de que também são seres humanos.
Apesar disso, a luta das feministas é diária e está longe de acabar. E dentro das coisas que ainda não foram resolvidas na estrutura sistematicamente machista que vivemos está o trabalho, e inserida no trabalho está a ciência, que é uma área das que as mulheres têm o menor reconhecimento possível, de todas as áreas existentes.

Afinal, olhe para a sua consciência e pense: quantas mulheres cientistas você conhece, ou sequer já ouviu falar sobre? A maioria das pessoas só conhece uma, a única mulher que de fato foi destacada e reconhecida no meio científico – não como os homens são, afinal ela não tinha como se colocar à parte do meio social machista – só obteve esse reconhecimento por ter ganhado dois Prêmios Nobel. Sim, estou falando de Marie Curie, a esforçada e inteligente cientista polonesa que conduziu as primeiras pesquisas do mundo todo e de toda a história sobre radioatividade. Ela foi a primeira mulher a ganhar um Prêmio Nobel e a primeira pessoa e a única mulher que já ganhou dois Prêmios Nobel.
Ela foi a primeira mulher a ser admitida como professora na Universidade de Paris e, no fim de sua vida, foi também a primeira mulher a ser enterrada no panteão de Paris. Marie Curie cunhou a Teoria da Relatividade. Mas não pense que para ter reconhecimento ela não teve de trabalhar de forma desumana, ou que só obteve seu devido reconhecimento meritocraticamente. As pessoas não conseguem reconhecimento da sociedade somente por mérito próprio. Diversos fatores sociais as levam a conseguir ou não ser vistas e respeitadas por seus trabalhos.
No caso de Marie, ela teve a sorte de ter nascido em uma família que era envolvida com a ciência, e seus pais eram os mais apreciados professores de sua cidade inteira, o que também deu-lhe mais visibilidade. A maioria das mulheres não alcançam essa visibilidade, e nesse quesito, se elas forem negras ou LGBTs, fica ainda muito mais difícil para terem esse devido reconhecimento, pois sofrem também racismo e/ou LGBTfobia.
Marie não podia estudar no ensino superior, pois a educação a partir desse nível era proibida para as mulheres, ela e sua irmã tiveram de ir para uma instituição clandestina chamada Universidade Volante para poderem dar prosseguimento a seus estudos. Ela só conseguiu ser professora na Universidade de Paris porque seu marido era professor lá e, quando ele morreu, ela o sucedeu no emprego.

Agora vamos falar sobre cientistas negras que, além de serem mulheres, por serem negras obtiveram ainda menos reconhecimento e enfrentaram muito mais dificuldades. Mae Jemison foi a primeira astronauta negra. Curiosamente, não existe nenhum registro sobre ela em português, tudo que foi escrito sobre sua história só pode ser encontrado em sua própria língua, o inglês estadunidense.

Além de Jemison, existe um grande número de cientistas negras que você não conhece e nem nunca ouviu falar, inclusive brasileiras. Enedina Alves Marques foi a primeira engenheira negra do Brasil, responsável pelo feito da usina Capivari-Cachoeira. A casa de sua família ficava onde hoje está a sede nacional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, cuja sigla é Iphan.
A família de Enedina era muito pobre, e ela só estudou em colégio particular devido ao delegado Domingos, para o qual a mãe dela trabalhava, uma vez que ele pagou a educação de Enedina para que ela fizesse companhia para sua filha.
É, a vida não é – e nunca foi - fácil para as mulheres, sobretudo as negras. Todavia, com o decorrer da história, lentamente houveram avanços. O programa “Para Mulheres na Ciência” nasceu em 2006 em uma parceria formada entre a empresa L’óreal com a Academia Brasileira de Ciências e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. Esse programa tem a motivação de transformar o panorama machista da ciência, favorecendo um equilíbrio de oportunidades entre mulheres e homens cientistas e busca também incentivar a entrada de mulheres no universo científico.
O programa “Para Mulheres na Ciência” funciona da seguinte forma: local e anualmente são escolhidas sete jovens pesquisadoras de diversas áreas de atuação, que são contempladas com uma bolsa-auxílio para ser investida em sua pesquisa. O prêmio já reconheceu 75 cientistas, que tiveram papel fundamental no desenvolvimento da ciência no Brasil. Todavia, dentre todas essas 75 cientistas, apenas três são negras. Isso evidencia que a luta está muito longe de acabar.