Coração de tinta e pena
- Ana Luiza
- 26 de jul. de 2016
- 8 min de leitura
A literatura surgiu no mesmo instante em que o homem aprendeu a pensar. Vamos fazer um exercício? Imagine o homem das cavernas planejando no pensamento como vai ser a sua próxima caçada. Agora, imagine esse homem combinando com outro homem das cavernas o seu plano.
Só aí temos três histórias possíveis e diferentes, a do homem das cavernas que planeja. A combinação gestual entre os dois homens e o nosso próprio exercício, a narrativa de nossa imaginação. A verdade é que o ser humano é por natureza um contador de histórias e a vida, não seria possível sem a comunicação.
Mas a história tem maior chance de sobreviver se ela estiver registrada nos autos. É por meio dos registros que os historiadores podem compreender o nosso passado e repassar esse conhecimento adiante, então foi assim que a literatura oficialmente surgiu. Seguindo a linha do tempo, passamos dos desenhos nas paredes das cavernas, depois pelos sumérios, que inventaram a escrita, seguido pela invenção do papel com o advento do papiro. Na sequência, os escribas começaram a colocar em prática, a primeira espécie de obra, em seus mosteiros mediáveis ornamentando seus incunábulos tão valiosos.

Até finalmente chegarmos no século XV, quando Gutemberg inventou o que chamamos de livro e permitiu a sua disseminação massiva. Depois disso, o ser humano nunca mais foi o mesmo. E hoje, nós vamos adentrar justamente nesse universo criativo da literatura. Vamos ao tema do dia? Dia 25 de julho, o dia do Escritor.
A profissão do escritor talvez seja um dos trabalhos intelectuais mais difíceis e injustiçados do mundo. Você já ouviu falar em diploma para escritor? Ou então já viu um escritor preencher seu currículo pedindo vaga para escrever seu próximo romance? O problema começa aí. O escritor trabalha sem qualquer perspectiva de sucesso ou recompensa. Navegar é preciso, diz o ditado, escrever também, e o escritor continua navegando e escrevendo, sem saber exatamente aonde isso vai levar.
Essa é uma necessidade espontânea do ser humano e que infelizmente só é valorizada quando o escritor recebe algum prêmio prestigiado ou então, se torna um best-seller. Para isso, o escritor precisa um pouco mais do que talento. Precisa também de sorte para ser reparado entre outros milhares de anônimos, sonhando com seu lugar ao sol. Para continuar essa trilha deprimente e que pode desestimular um iniciante, que não esteja preparado para as decepções... você sabia que a maioria dos escritores precisa ter outro trabalho para poder complementar a sua renda, ou até mesmo, para sobreviver?
Uma pesquisa realizada pelo jornalista, Santiago Nazarian para a Folha de São Paulo, revelou que o ganha-pão dos escritores se divide entre traduções, debates, atividades acadêmicas, jornalismo, oficinas literárias... A renda dos livros que deveria ser o salário oficial desses profissionais ocupa a distantes e depressivas 4ª posição. Por isso novamente, os escritores são os verdadeiros mártires da arte.
Não é fácil sobreviver de literatura no mundo. Que dirá no Brasil, em que as taxas de leitores de ínfimos 35% caíram para 32% em 2015. Você sabia que no ano passado de cada dez pessoas, sete não leram UM livro sequer?
Mais do que preocupante as estatísticas, são as respostas que os entrevistados deram para explicar essa aparente falta de interesse. Ocupando o 3º lugar na pesquisa “Retratos da Leitura do Brasil”, realizada pelo censo Ibop para o Instituto Pró-Livro, o brasileiro respondeu que não lê porque acha o livro caro no país.
Em 2º lugar estão empatados os vergonhosos motivos de que o cidadão prefere outras atividades e os que resolveram assumir que não tem mesmo paciência para ler nada. E em primeiríssimo lugar, a maior desculpa e a maior verdade do trabalhador brasileiro é: o brasileiro não lê porque não tem tempo para isso.

Ler é um gesto cultural, logo, a leitura deve ser incentivada ainda no período da escola. Mas a educação no Brasil continua operando no fundo das tabelas, e se a economia do país vai mal, a educação também deixa a desejar. Os pais também são responsáveis por influenciar o gosto pela leitura nas crianças, mas se eles não tiveram uma boa educação e não tem esse hábito, esse conhecimento também não vai ser passado adiante. E agora, quem vamos culpar? O governo ineficiente, o desinteresse social, o mercado de trabalho que não dão tempo para o trabalhador desfrutar do lazer, a mídia, os pais, a nossa cultura pobre, outra vez? Quem não lê bem, não escreve bem. Esse ciclo vicioso e terrível não encontra nem culpados e nem heróis.
Vamos a outro ponto delicado dessa gangorra. O brasileiro reclama que o livro no país é caro pra chuchu e, de fato, ele está certo. O preço desse produto vem subindo consideravelmente ao longo dos anos. Agora, uma incoerência: você sabia que as editoras no Brasil são isentas de impostos desde a década de 1950? Então o que explica esse preço tão alto?
Na frança, o país recordista de leitores no mundo, a tiragem média de uma edição de livro não sai por menos de dez mil exemplares. Já no Brasil, as editoras não costumam se arriscar acima de 1.000, 1.500 exemplares, com medo de encalhar as prateleiras, e infelizmente, o lucro só aparece acima de dois mil exemplares.
Outro ponto interessante é que o preço do livro na frança é contabilizado pela obra total enquanto no Brasil o preço é definido folha por folha. Quem mais sofre com isso, claro, é o escritor, que tem que dividir seus royalts com as editoras, as distribuidoras e também com as livrarias. No final, o escritor fica com apenas dez por cento de cada venda.
Grandes mestres da literatura apostaram em autopublicações para fugir da burocracia, da censura e também da repartição injusta dos lucros. Nessa lista, Marcel Proust que teve sua obra prima, “Em Busca do Tempo Perdido”, rejeitada, foi publicada por ele mesmo, que arcou com o todos os custos da produção.
O mestre irlândes, James Joyce também publicou seu poderoso “Ulysses” na calada da noite, com medo de seu livro cair nas leis da obscenidade. Já Charles Dickens saiu vendendo seu famoso conto de Natal de mão em mão e hoje ele é um clássico da literatura. Da mesma maneira, Anais Nin, Mark Twain, William Blake e Stephen King, também optaram por fugir das garras das editoras e empreenderam suas próprias publicações.
O fato é que os escritores continuam se renovando e apostando nessa arte que nunca fica fora de moda e permanece, como uma das maiores riquezas da nossa capacidade intelectual. O livro não muda o mundo, mas se ele for capaz de transformar uma única pessoa, então você já sabe, o escritor vai ter cumprido o seu papel.
Vamos descobrir agora o que leva os escritores a esse trabalho? Você sabia que Saramago escrevia porque não queria morrer? E que Anais Nin escrevia para saborear a vida duas vezes? Já Clarice Lispector disse que cumpria seu trabalho porque desejava desabrochar de um modo ou de outro e Bukowski para não enlouquecer de vez.
Esses gênios da literatura são os verdadeiros professores de um escritor e a leitura, é a única escola que eles tem a disposição. Mas o campo das artes está longe de ser um mar de rosas, e todos os grandes escritores tem uma biografia tão ou mais interessante do que suas ficções...vamos as curiosidades e fofocas desse universo literário.

Você sabia que Ernest Hemingway, além de toureiro, marujo e outras mil aventuras, também foi um espião soviético? Um pouco antes de morrer, seus poucos amigos acharam que ele estava ficando paranoico porque Hemingway dizia que estava sendo espionado. O escritor chegou a passar por tratamentos de eletrochoque segundo recomendações médicas.
Tempos depois, foi revelado que o FBI estava realmente vigiando Hemingway, por ordens do presidente, J. Edgar Hoover e que o autor de “O velho e o mar”, estava na lista de espiões da KGB. Com base nas notas de um oficial do serviço de espionagem russo, Hemingway foi recrutado em 1941, depois de fazer uma viagem para China, seu codinome era Argo.
Você sabia que o poeta francês Arthur Rimbaud virou contrabandista de armas na África? Rimbaud que escreveu uma das maiores obras primas da poesia com apenas dezoito anos, desistiu da fama em paris, e fugiu para a Abissínia.
No fim de sua vida, Rimbaud foi encontrado vagando pelo deserto com a perna gangrenada e sérios problemas no estômago devido ao peso das moedas que ele escondia no cinto da calça. No fim, seu único medo era ser preso porque ele havia fugido do alistamento do exército e Rimbaud acabou morrendo com apenas 37 anos de idade.
Você sabia que Bukowski só teve um livro publicado aos 49 anos de idade? O autor que quase morreu de úlcera de tanto beber, trabalhou nos Correios durante dez anos. Segundo o escritor ele tinha duas opções, continuar no emprego e ficar louco ou virar escritor e passar fome. Adivinha o que ele escolheu? Bukowski disse que preferiu passar fome.
E você sabia que Nieztsche, Rainer Maria Rilke E Freud disputaram a mesma mulher? Lou Andreas Salomé, era uma intelectual de espírito rebelde e independente. Os três escritores tentaram em vão pedir Salomé em casamento que rejeitou, um a um, a proposta.
E Borges, você sabia que o escritor argentino, Jorge Luis Borges ficou cego aos 55 anos de idade? Mesmo assim, ele encontrou uma maneira de continuar escrevendo. O que ele fez, foi narrar suas histórias para a secretária que datilografava na mesma velocidade de sua imaginação.
Anais Nin foi a maior escritora erótica de todos os tempos. Você sabia que Anais teve um romance tórrido com o também célebre escritor, Henry Miller? Não satisfeita, Anais Nin também se envolveu com June, a mulher de Henry Miller e nessa lista, também pode colocar um dos psicanalistas mais famosos da história, o doutor Otto Rank, que caiu aos pés da autora.
Há também os escritores reclusos que depois da fama, nunca mais pisaram os pés para fora de casa. Proust, Raduan Nassar, Dalton Trevisan e o mais anti-social de todos os tempos, Salinger, autor do best-seller, “O apanhador no campo de centeio”.
Você sabia que Balzac morreu de uma overdose de café? E que Edgar Allan Poe sofria de bipolaridade e Nelson Rodrigues, considerado obsceno, nunca escreveu um palavrão em toda sua obra? Infelizmente, também temos aqueles que sucumbiram e acabaram com a própria vida. Hemingway, Hunter Thompson, Virginia Woolf, e a história mais triste de todas, de Sylvia Plath.

A poeta, antes de ligar o gás do forno, deixou do lado da cama de seus filhos, um prato com biscoitos e dois copos de leite. Para proteger eles, Sylvia ainda abriu as janelas do quarto e vedou a porta com panos úmidos, para que nada acontecesse com seus filhos.
São esses os heróis da literatura. Os que nunca bocejam diante da vida e escrevem, escrevem, porque esse é o destino deles. Se você é um escritor e deseja dicas de como entrar nesse mundo da literatura, Caio Fernando Abreu em uma carta para seu amigo Zézim, explica como deve ser o trabalho de um escritor.
Nessa carta, ele diz, você quer escrever, certo? Mas você quer escrever ou todo mundo te cobra e você acha que tem que escrever? Sei que não é tão simples assim e tem mil coisas envolvidas nisso. De repente você pode estar confuso porque fica todo mundo te cobrando, como é que é? Cadê sua obra, cadê seu romance? Cadê sua novela? Sua peça de teatro?

Não tem demônio nenhum se interpondo entre você e a máquina. O que tem é uma questão de honestidade básica. Essa perguntinha, você quer mesmo escrever? Isolando as cobranças, continua querendo? Então vai, remexe fundo, como diz o poeta gaúcho Gabriel de Brito Velho, apaga o cigarro no peito, diz para você o que não gosta de ouvir, diz tudo. Isso é escrever. Tira sangue com as unhas. E não importa a forma, a função social, nem nada, não importa que a princípio, seja apenas uma forma de autoexorcismo, mas tem que sangrar, abundantemente. Você está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói, é de uma solidão assustadora. Se você é corajoso o suficiente para se entregar a esse trabalho, eu desejo a você um feliz dia do escritor, porque vocês realmente merecem.